Teoria da Mente no Transtorno do Espectro do Autismo
- Dra Ana Carina Tamanaha

- há 2 dias
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Como vimos no texto publicado no mês passado, durante todo o período da primeira infância, as crianças refinam suas percepções sobre as relações estabelecidas com outras crianças e pessoas familiares em seu cotidiano, e passam a compreender que as ações de uma pessoa dependem da maneira como ela vê e percebe o mundo ao seu redor 1.
Denomina-se Teoria da Mente (ToM) o construto teórico que permite à criança a atribuição e a interpretação de estados mentais, como as crenças, desejos, intenções, em si mesmo e nos outros1-3. Essa habilidade sociocognitiva se desenvolve também em função do aprimoramento da capacidade linguística, especialmente da pragmática. Isso significa que conforme a criança vai tornando-se hábil para compreender a perspectiva do outro, ela também amplia o domínio linguístico, por exemplo, em suas condutas explicativas e justificativas.
Aos 4 anos de idade crianças típicas já são hábeis para compreender, interpretar e prever comportamentos sociais de seus interlocutores da mesma forma que são capazes de narrar fatos sob diferentes perspectivas. Á medida que a primeira infância vai terminando as habilidades de Teoria da Mente vão se consolidando nas crianças.
Sendo assim, falhas em tarefas que envolvem a atribuição de estados mentais são forte indicadores de prejuízos nos desenvolvimentos comunicativo e sociocognitivo1-3.
É notório que dentre as diversas manifestações clínicas observadas em pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), destaca-se os déficits de ToM1-3. O Transtorno do Espectro do Autismo é uma condição neurobiológica caracterizada por prejuízos severos e persistentes nas áreas de interação e comunicação social e pela presença de repertório restrito e estereotipado de interesses e atividades. A inabilidade de atribuição de estados mentais é considerada falha básica que compromete demasiadamente a interação e a comunicação social no espectro autista.
As primeiras testagens de ToM em crianças com TEA tiveram início na década de oitenta com a aplicação do Teste Sally-Ann, por pesquisadores britânicos que comparam os desempenhos de três grupos de crianças: autistas, com síndrome de Down e típicas. Eles demonstraram que a falha no grupo de crianças autistas foi significativamente maior na comparação com os outros dois grupos.
Com o passar dos anos, foram construídos e aplicados testes com diferentes níveis de complexidade cognitiva e outros, envolvendo conteúdos com linguagem figurada1. Essa análise refinada do desempenho nas tarefas de Teoria da Mente é fundamental para que o fonoaudiólogo possa avaliar as competências de linguagem envolvidas na cognição social e assim, planejar o processo terapêutico fonoaudiológico contemplando o aprimoramento das habilidades sociocomunicativas da criança, do adolescente e do adulto com TEA.
Para saber mais:
1. Quaresma N, Nascimbeni RCD, Perissinoto J, Tamanaha AC. Compreensão de histórias envolvendo Teoria da Mente em crianças com Transtorno do Espectro Autista. Rev. CEFAC. 2025, 27 (3): e8124.
2. Dowker A, Frye D, Tsuji H. Theory of mind in relation to other cognitive abilities. Front. Psychol. 2023;18(13):1123321.
3. Duvall L, May KE, Waltz A, Kana RK. The neurobiological map of theory of mind and pragmatic communication in autism. Soc Neurosci. 2023;18(4):191-204




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