Desenvolvimento de Linguagem e Teoria da Mente
- Dra Jacy Perissinoto

- há 2 dias
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Somos serem sociais e a linguagem - por meio de gestos, fala, escrita e outras representações - é o recurso para as diferentes formas de interação que fazemos. Na dinâmica da comunicação usamos nossas experiencias para tentar compreender o que fazem ou dizem as outras pessoas e para nos fazermos compreendidos por elas.
Assim, a criança desenvolve hipótese sobre as ideias, crenças e desejos das outras pessoas e sobre como isto interfere no comportamento delas. A este conjunto de ideias os pesquisadores nomearam de Teoria da Mente (theory of mind /théorie de l’espirit), isto é um conjunto de conhecimentos vivenciados pela criança que ela usa para entender as atitudes de outra pessoa e daí depreender como esta pessoa pensa.
Em uma construção conjunta com pais e cuidadores, a criança bem jovem compreende o ato comunicativo antes de falar e segue o gesto de apontar do adulto em direção do que está sendo apontado e, gradualmente, se dá conta de que o outro também pode ser levado a dirigir sua atenção sobre determinado objeto, por meio do gesto de apontar.
Ao longo da infância, as crianças refinam esta capacidade em parcerias com outras crianças e adultos, até compreender que são também as relações entre os objetos que mudam se estes são vistos de uma perspectiva ou de outra. A criança percebe que a ação do sujeito se estabelece em função do conhecimento daquela pessoa e não apenas em função do mundo e, finalmente, compreender o princípio básico de que as ações de cada pessoa estão baseadas na sua própria representação da realidade, que pode ser diferente daquilo que “realmente” está lá.
As pesquisas sobre a capacidade da criança de assumir a perspectiva de outras pessoas mostram que ela, já aos 2 ou 3 anos, tem, pelo menos, certa capacidade de compreender que as outras pessoas veem as coisas ou experimentam as coisas de maneira diferentes das dela. Nesta idade as crianças adaptam sua fala e seu brincar às características de seu parceiro de brincadeiras e conversas, nas trocas de experiencias com diferentes pessoas e situações
Estudos observacionais evidenciam que, em situação natural, na segunda metade do segundo ano de vida as crianças começam a utilizar termos explícitos dos estados mentais do outro na brincadeira e em relatos de situações, tais como vontades (ex.: “ela/boneca quer mais bolacha”), percepções (“ela/ boneca está com frio”), sentimentos (ex.: finge que o boneco “chora” porque caiu), etc.
Outras pesquisas que procuram sinais da ação implícita dos estados internos do outro na utilização da linguagem em situações comunicativas naturais, mostram que as crianças com menos de três anos podem adaptar a forma e o conteúdo da mensagem em função do estado de conhecimento suposto de seus interlocutores, de sua identidade e de certos parâmetros do contexto. São exemplos, dar voz a uma boneca falando como um bebê; curva-se para falar com criança menor etc.
Sem esforços ou instrução formal, a criança descobre que as pessoas têm ideias e objetivos e que seus comportamentos expressam seus pensamentos e vontades. Essas habilidades são fundamentais para o desenvolvimento social e da linguagem ao longo de todos os ciclos de vida, à medida que integram informações dos contextos situacional, interpessoal e linguísticos e, também, na leitura e na escrita.
É possível enriquecer esta evolução, por exemplo, abordando pontos de vista, vontades, intenções e desfechos em brincadeiras de faz de conta, ao partilhar narrativas ou livros de figuras e depois com textos ou revista em quadrinhos e acompanhar a criança e o adolescente em suas descobertas de que as expressões e gestos, prosódia e diálogos das personagens fazem parte da história e até ajudam a entender as diferentes camadas de informações do que acontece.
Para saber mais:
Tomasello M. (2003) Origens culturais da aquisição do conhecimento humano. (C. Berliner, Trad.) São Paulo: Martins fontes.
Pinto AVGS; Avila, CRB; Perissinoto J. Produção escrita, pragmática e teoria da mente em escolares do ensino fundamental. REI. 2017, v.12: 1-14.
Pessoa RR; Araújo, Sara CS; Isotani SM; Puccini RF; Perissinoto J. Interpretação de ambiguidades de escolares de Embu das Artes (SP) nascidos com baixo peso. CoDAS. 2016, v.28: 526-32.




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